sexta-feira, 28 de maio de 2010

Manuel de Freitas

Pressa de viver
                   [para o Z�, que nunca ler� este poema]   Negro, trinta e dois anos, dealer. Pensava que a guerra no Kosovo tinha por motivo �nico a resist�ncia � convers�o em euros - e talvez nisso tivesse, afinal, uma obscura raz�o. Noutra noite, vi-me obrigado a explicar-lhe o melhor que pude o que era o FMI - que ele decerto interpretou como um partido de 'tugas vagamente herm�tico. De facto, � outra a sua economia: contos de xamon, pastilhas, piropos de esquina, os dois ou tr�s filhos de que apenas b�bedo se lembra.  Mas n�o � bem disso que eu hoje queria falar. Pass�mos a noite lado a lado, no mesmo balc�o. Demorei algum tempo a cumpriment�-Io - �t�-se?�. Pediu logo grandes, imensas desculpas por n�o me ter visto. Que era �pressa de viver�, garantiu-me, aquilo que nos torna t�o cegos � �s evid�ncias, ao rosto desse pr�ximo que s� por b�blico acaso amamos - quando o �dio, mais discreto, d� nome e sentido �s ruas.  Fingi acreditar, procurei n�o desmentir o seu olhar verde vindo de outro qualquer planeta. Seria dif�cil explicar-lhe �quela hora a compulsiva demora de morrer que me faz sair de casa e procurar, entre ningu�m, a pior das companhias: eu.  Acabou por levar para a rua uma imperial de pl�stico, lembrado talvez dos poss�veis clientes a quem ajudar� a esquecer um emprego, o desamor, o calor sinistro deste Ver�o. Na verdade, pouco mais haveria a dizer sobre este corpo brando que h� v�rios anos se encosta �s minhas noites. Serve-me de escudo para os b�rbaros mais novos - e protege-se, o melhor que pode, da rusga sem objecto a que chamamos vida.     [SIC] poesia in�dita portuguesa Ass�rio & Alvim, via Poesia e Prosa

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