domingo, 29 de abril de 2012

quinta-feira, 26 de abril de 2012

segunda-feira, 23 de abril de 2012

António Lobo Antunes







 

«Nação valente e imortal»



Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. 

Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.

Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. 

Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade. O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles. 

Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. 

O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. 

Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito. 

Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver

- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro

- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima

- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. 

E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.

As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. 

Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.

Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!

Loureiro para o Panteão já!

Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!

Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha.

Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.

Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. 

Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. 

E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. 

Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho. Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar. Abaixo o Bem-Estar.

Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.

Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.

Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.


in Revista Visão
05.04.2012

Pixinguinha

Faria hoje 115 anos.
Gilberto Gil partilhou no facebook este video fabuloso:
-Olhe aqui, Mr Buster!



William Shakespeare


               
                                  "Que época terrível esta onde idiotas dirigem cegos!"

domingo, 22 de abril de 2012

Jack Nicholson

O meu actor favorito completa hoje 74 anos.
Nem se nota nada. Só o talento


Francisco Louça somando lições




Hoje só se podem fazer previsões, amanhã saberemos os resultados das eleições francesas. Hoje, não me ocupo de previsões, mas de lições. As que aprendi com esta campanha.
Lição 1. Sarkozy pode ser derrotado e vai ser derrotado. Isso é bom para a Europa e para a esquerda. É por isso que os eleitores de todas as esquerdas francesas vão votar na segunda volta em Hollande, incluindo também os que sabem que Hollande será um presidente colado ao consenso liberal capitaneado por Merkel. Mas a derrota de Sarkozy acrescenta contradições e abre espaço para a luta social. É uma grande mudança.
Lição 2. O eleitorado de esquerda em França é de esquerda. O eleitorado do PSF está à esquerda do PSF. É por isso que Hollande faz uma campanha prometendo o que Seguro nunca diria em Portugal: retirar tropas do Afeganistão, reforçar o imposto sobre as fortunas, renegociar o Tratado europeu.
Lição 3. Jospin já prometera renegociar o Tratado de Amesterdão e assinou-o três semanas depois de ter ganho as eleições. Hollande procederá da mesma forma, numa situação certamente mais difícil e com uma margem de manobras pior na Europa. É por isso que Melenchon garantiu que não entraria no governo do PSF, que rejeita a austeridade e que continuará o combate pela “revolução cidadã”. A França não vencerá a austeridade e o dogma liberal sem um movimento social que seja decisivo, a partir de baixo.
Lição 4. Jean-Luc Mélenchon mobilizou o essencial da esquerda social e das esperanças socialistas. Foi o candidato da mudança e a sua Frente de Esquerda é um bom exemplo de convergência que constrói. Por opção própria, ficaram de fora o NPA e LO, com candidaturas próprias para afirmarem programas – e com resultados que serão muito inferiores aos que tiveram no passado (tiveram cerca de 5% nos seus melhores momentos) –, e os Verdes, que escolheram colarem-se ao PS e caminham para a catástrofe eleitoral e política (tiveram 16% nos seus melhores momentos). O sectarismo e o carreirismo não são políticas para a esquerda.
Lição 5. O Bloco de Esquerda faz parte do grupo de famílias políticas europeias em que se integra o Partido da Esquerda, de França. Miguel Portas e Marisa Matias, os euro-deputados do Bloco, participam ao lado de Mélenchon, nesse grupo unitário das esquerdas no Parlamento Europeu. Precisamos de mais esquerda na Europa.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Homens de luta


Procuram-se.
Para construir Portugal Novo, para recuperar Portugal Antigo.
Precisam ter valores e referências de vida. Família, educação, justiça e algumas noções de cidadania activa.
Não têm que dominar Word nem Excell, não necessitam estar habilitados em condução, nem precisam ser poliglotas, não é necessária experiência em colar cartazes e de preferência não devem usar aventais, a não ser na cozinha das suas casas, precisam de doses extra de sensatez, coragem e algum domínio em fenómenos de grupo. Aceitam-se maiores de 18 e menores de 80.
Podem ter que trabalhar horas extras.
A recompensa é adicionada aos honorários: Recuperar valores perdidos ou substituídos, encontrar medidas e leis ajustadas às suas necessidades, quer na saúde, educação, mercado de trabalho, inflação etc.
Honorário colectivo: O tal do país novo! Urge desencantar a massa combalida pelos péssimos governos consequentes. Alerta vermelho. As entrevistas começam logo que haja um número considerável de bravos da nação.

sábado, 14 de abril de 2012

Herói anónimo II




O nosso herói deitado no chão, jaz devido à maldade imposta pelo hedonismo dos homens que caçam, não pelo espírito de sobrevivência mas, para seu belo prazer.
Na foto, pode ver-se o Rei Juan Carlos de Espanha acompanhado de um amigo de crimes idênticos.
Perdoem-me o foco no animal. Ao olhar a fotografia com atenção, não me restaram dúvidas.
O homem-elefante jaz sofredor e os animais sorriem para a câmara.
E se ele me lesse, deveria dizer: porque no te callas tu?
Eu calo-me mas a foto que aqui fica é testemunho de que eu vi e muitos outros poderão ver a podridão humana e a dimensão patológica que alcança o prazer de alguns.

Jean-Luc Mélenchon



Jean-Luc Mélenchon nasceu em Tanger, Marrocos a 19 de Agosto, licenciado em filosofia e professor antes de ingressar no universo político, Mélenchon foi ministro de Educação Vocacional de 2000 a 2002, bem como membro do Senado, como representante do departamento de Essone.

O homem da esquerda radical  (esquerda socialista -materialista histórico),  cuja máxima assenta em "Tomemos o Poder", vai colhendo frutos da sua divergência de ideais face ao socialismo moderado de  Hollande mas, sobretudo, a todas as outras correntes de direita (a Marine Le Pen chama-lhe o morcego ou a besta vomitando veneno). Como afirma o Público, de um jeito lírico, Mélenchon "tem conquistado eleitores como se apanhasse flores num jardim".
A 22 de Abril, a França irá votar a primeira volta ás presidenciais e, segundo o jornal Figaro, os seus comícios são semelhantes ás tele-evangélicas dos Estados Unidos da América. Mélenchon, radical na sua campanha eleitoral, incentiva a população a uma revolta civil e cidadã. Considerando que a União Europeia deixou de ser uma solução e passou a ser "o problema" ( o liberalismo económico americano corrompeu as instituições, passou o poder absoluto para  a tecnocracia, retirando a legitimidade do poder ao povo);  baseia o seu programa Manifesto O Humano Primeiro,  na taxação máxima (100%)  de todos os rendimentos acima dos 360 mil euros anuais, considera o salário mínimo na ordem dos 1700 euros mensais, defende a saída da Nato e descarta radicalmente a postura de ratificação do mecanismo europeu de estabilidade do euro.


Jean-Luc não se auto-intitula comunista, mas um esquerdista socialista, estando, desde sempre, a favor de uma Europa democrática unida e cooperativa, tendo-se oposto ao Tratado de Lisboa, bem como à independência do Banco Central Europeu. Mais palavras para quê? As multidões identificam-se, vêm-se representadas, como analisa o jornal La Croix, dizendo que 80% dos franceses compreende que a globalização está a acabar com o empregos, sendo que 70% considera ainda que a mesma é responsável pelo aumento do défice. A somar-se a este quadro, o descontentamento com o actual presidente Sarkozy e descontentes com o outro candidato, François Hollande, dito "candidato normal".
A ver vamos se este homem poderoso pelo dom da palavra e ideais consegue converter o liberalismo económico assente no poder absoluto da tecnocracia numa tendência do refluxo de esquerda a retomar o poder legítimo do povo, a concretizar e ajudar a democracia europeia no rumo das democracias saudáveis.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Herói Anónimo

Só pode ser um bravo da nação.